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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Birra de Pai, sabedoria de Filho.




O pequeno cruzou os braços e deixou-se largar, emburrado, sobre o sofá da sala, ainda de cueca e meias. O pai caminhava apressado de um lado para o outro, preparando um sanduíche ao passo que vestia o terno e fechava as janelas. Olhou a hora no relógio dourado de pulso. Quinze para às sete. Já estavam atrasados para a cerimônia.

- Levanta logo daí, moleque. Não quero saber de birra agora – disse o pai quando passava pela terceira vez uma revista na sala à procura do seu cinto marrom.

O garoto lançou-lhe seu olhar mais amargurado, de esguelha. O pai não lhe deu atenção.

- Não quero vestir essa roupa! - repetiu irritado.

O pai olhava-o com uma mescla de irritação e compaixão, estava de meias e segurava os dois sapatos pretos, brilhantes, nas mãos.

- Já conversamos sobre isso. O papai está vestido em uma roupa igualzinha à sua. Não há nada de errado em vestir um terno de vez em quando. Por que não levanta logo daí e vai se vestir, garoto? Estamos atrasados. – Depois que disse isso, ele sumiu para a cozinha.

- Mas eu não quero vestir essa roupa feia! Não quero vestir ela hoje, eu falei para o senhor - berrou o garoto, indignado com a falta de sensibilidade do pai.

Saltou do sofá. Suas pernas eram tão curtas que quando estava sentado não alcançavam o chão. Caminhou para a cozinha, decidido a insistir com o pai mais uma vez. Uma hora ele teria de ceder.

- Não pode me forçar a usar o que não quero! Está interferindo nos meus direitos de livre artíbrio!

O pai abaixou-se para nivelar seu rosto com o do filho e encará-lo de frente.

- Quantos anos você tem, afinal, seu monstrinho? – Entregou o sanduíche de frango e queijo nas pequenas mãos do garoto, que recebeu a contragosto, fazendo beiço. – Quero que entenda uma coisa, filho: Vai estar todo mundo vestido a caráter lá. Você não vai querer ser o único usando uma roupa diferente, vai?

Por um instante mínimo, no qual o garoto permaneceu indeciso, a vitória parecia certa.

- As mulheres também vão vestir isso? - retomou ele, mirando com tom de dúvida a negra vestimenta do homem a sua frente.

O pai sentiu uma forte contração no estômago. Respirou fundo para não perder de vez o controle. Quanto tempo ainda teriam até o telefone começar a tocar? Por que não fazia como os outros pais? Por que não ameaçava aquele fedelho com o cinto, e obrigava-o a vestir a droga do terno? Seria até muito conveniente que fosse chorando. Chegaria lá com os olhos vermelhos e marejados, ninguém adivinharia o que realmente aconteceu e achariam que fosse um comportamento normal, uma reação comum ao acontecido.

- Filho, por favor... – Não sabia bem o que dizer. Mas sabia que não queria estender mais aquela conversa. - Isso não vem ao caso. Mas, só para você saber, as mulheres vestem roupas um pouco diferentes nessas ocasiões, mas só um pouco.

- A mamãe vai estar vestida igual às outras mulheres, então?

Era difícil prever o que o garoto tinha em mente com aquelas perguntas aparentemente inocentes.

- Bem... a sua mãe não... Ela vai vestir uma outra coisa. Eu não sei bem como explicar.

- Eu posso vestir uma roupa um pouco diferente, então? Juro que você nem vai notar a diferença. Por favor, pai!

Aquele menino sabia o que estava fazendo. Era esperto. Enquanto o pai matutava, ele comera metade do sanduíche, só para aplacar os ânimos. Você cede um pouco dali, eu cedo um pouco de cá. A velha política da boa vizinhança.

- Mas você não é uma mulher. Tem que vestir-se como os homens. E todos os homens vestem ternos pretos nestas ocasiões.

- Não sou um homem! E não quero vestir preto!

Susto! O pai virou-se bem devagar para olhar no fundo dos olhos do filho. Será que...? Mas tão cedo?

- Esses dias mesmo você disse que tomar cerveja é coisa de homem. E que eu não passava de um menino. Tenho certeza que essa regra que diz que todos os homens devem se vestir igual também não se aplica aos meninos.

Alívio. O pai, exausto da conversa, olhou mais uma vez o relógio. Mais que atrasados. Não pegaria nada bem chegar atrasado, justo eles. O que seria pior? Alguém julgaria que ele fosse um pai irresponsável ou relaxado por deixar que o filho vestisse o que quisesse naquela ocasião? Talvez não em um momento tão delicado como aquele. Resolveu, por fim, entregar-se, mas só desta vez.

- Olhe aqui... vê se não estressa mais, está bem! Vai ao quarto e escolhe logo alguma outra coisa pra vestir. Depressa!

O menino disparou para o quarto, largando o resto do sanduíche sobre o balcão da cozinha. Mal podia conter a felicidade.

- Mas vê se não escolhe nada colorido demais... – tentou avisar o pai, tarde demais.

O garoto já voltava do quarto trazendo nos braços um short vermelho dos Power Rangers e uma camiseta amarela estampada.

- Ah, não! Filho...

- Não se preocupe, papai. Tenho certeza que mamãe vai adorar me ver assim. Ela sempre me deixa usar o que eu quero. E ela gosta muito desta camisa aqui. Foi ela quem me deu.

O coração do pai se abrandou com aquelas palavras.

- Então vamos de uma vez! Deixa eu te ajudar a vestir isso.

Depois de tudo pronto. Saíram pela porta dos fundos. O pai de terno bem passado, gravata e tudo o que pedia a ocasião. O garoto, mais colorido que um carro alegórico, com boné de skatista e tênis com luzes que piscam. Entraram os dois no carro, o pai manobrou para a calçada, então desceu para fechar o portão da garagem. Quando voltou ao carro, todas as preocupações de antes haviam sumido. Não via mais nenhum problema em deixar o filho ir vestido como quisesse ao enterro da própria mãe. Vai ver ele estava certo, ela poderia até gostar de vê-lo daquele jeito.

5 comentários:

  1. Eu gostaria de encarecidamente perguntar ao sr. Pedro Henrique qual a diferença entre poema e poesia. Obrigado.


    rererere

    [gostei]

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  2. kkkkkk, pois vou te dizer. Poema e Poesia é tudo a mesma coisa, só que diferente!

    vlw, por ter lido.

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