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domingo, 21 de julho de 2013

A selva e o caos: Uma teoria sobre a educação no Brasil

O Brasil está passando por um momento decisivo no seu sistema educacional, estamos à beira de um grande colapso que não pode ser evitado, mas que dará novos rumos para a educação, e este caos poderá ser a sua salvação.



Nunca, no país, o salário dos professores da rede pública esteve nesse patamar que temos hoje, sempre esteve muito abaixo, as escolas nunca foram, em sua maioria, tão bem estruturadas, nunca se destinou tantos recursos para educação como agora, no entanto, o nível de insatisfação é extraordinariamente superior e cresce exponencialmente, se compararmos, por exemplo, com o início do século XX, quando as escolas normais estavam lotadas de futuros professores.  

                
O que a profissão de professor perdeu, ao longo deste meio milênio de Brasil, foi algo muito além da nossa compreensão individual. O professorado perdeu o seu prestígio.  Hoje, qualquer outra profissão de nível superior tem mais prestígio que a de professor. Esta questão vai além dos baixos salários e das condições de trabalho. Está mais ligada com o que o senso comum estabeleceu como sendo característico do professor. A ideia de que nenhum professor está satisfeito com o seu trabalho. A ideia de que os professores não possuem uma formação adequada. A ideia de que a escolha desta profissão é vista como última opção, bem como a permanência nela.
                
Percebe-se, de modo geral, que os melhores profissionais não permanecem na educação por muito tempo, pelo menos não na educação básica. Há sempre uma tendência desses profissionais, bem capacitados, de migrarem para outras áreas mais rentáveis ou mais bem vistas socialmente, ou pelo menos para o ensino superior.
                
Se fizermos uma pesquisa com os graduandos de qualquer curso de licenciatura e perguntarmos se pretendem fazer carreira e se estabelecer profissionalmente no ensino básico, a resposta da grande maioria certamente será: Não. No entanto, é para onde acabam indo, com o dobro de frustração.
                
Mas este momento é um importante passo para a transformação da educação no Brasil. O colapso que estou prevendo já deu os seus primeiros sinais de vida e logo, logo, causará grande alvoroço. Mas isso faz parte do processo de regeneração e não devemos nos desesperar. É preciso que o sistema de desconstrua quase que por inteiro para poder se reconstruir de uma outra forma, uma nova forma, que eu chamaria sustentável. Isso não acontecerá de uma hora para outra, poderá levar anos, décadas, irá depender do senso de criticidade e administração dos nossos governantes.
                
A partir de agora vou relatar uma teoria sobre a forma como eu acredito que esse processo se dará.
                
Já estamos percebendo que cada vez menos jovens manifestam interesse pela área da docência. Os cursos de licenciatura estão praticamente falidos. Espero que isso realmente aconteça. A falta de profissionais na área vai gerar uma grande carência no mercado. Nas escolas, os professores que restarem, farão turnos dobrados para suprir a demanda. As reclamações virão e as medidas drásticas também.

A carência de profissionais irá exigir do governo um plano de incentivo para atrair os professores. Como o que estamos vendo acontecer com os médicos do Brasil, o processo não será muito diferente. Então esperemos que o capitalismo faça o que faz de melhor, influencie fortemente as decisões das pessoas e provoque grandes mudanças sociais. Sobem-se os salários oferecidos para os professores, diminui-se a carga horária trabalhada, sobe-se o nível de competência exigida para o cargo.
                
Quando o salário é bom e as condições melhores, a concorrência por um cargo automaticamente aumenta. Na luta pela sobrevivência a lei da natureza prevalece, então vencem os mais fortes. Neste caso, os mais bem capacitados. A educação deixa de ser um espaço de despejo de maus profissionais e vira um lugar concorrido, onde os bons profissionais desejarão estar. Um bom salário, uma carga horária justa, uma estabilidade conquistada por meio de concurso público e um bom plano de carreira, impulsionará a profissão de professor para o Top 5 da lista de melhores empregos.
                
Mais jovens quererão entrar para os cursos de licenciatura nas Universidades, a concorrência exigirá mais preparação para os vestibulares. Os professores nas escolas públicas de ensino básico serão os melhores do mercado. Os velhos fósseis da educação terão que se renovar, ou serão desligados do sistema, sem dó nem piedade (um mérito inteiramente capitalista). E uma coisa impulsionará a outra até que estejamos inteiramente estabilizados e satisfeitos com um nível de educação superior a que tempos hoje.
                
Não temos como ter certeza de que tudo acontecerá exatamente desta forma, mas eu estou tranquilo quanto ao caos na educação, pois é no caos que nascem as ideias mais brilhantes (para citar um cientista famoso).  Para crescer, como as outras profissões têm crescido nos últimos anos, a educação necessitará se render aos encantos do capitalismo, pois, infelizmente, é a uma das poucas coisas que consegue alcanças todo o tipo de profissional. Ninguém está mais disposto a morrer de fome por amor a profissão, esta tática de dominação intelectual não funciona mais no mundo pós-internet. É necessário dar ao profissional valorização, e valorização em forma de moeda, que é o maior símbolo de poder que conhecemos hoje.
                
Conhecimento traz poder, mas na selva capitalista em que vivemos, é necessário que traga dinheiro também.

               
P. H. G. Paiva 

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