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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A repressão do rosa

Análise do filme “Minha vida em cor de rosa” (1997), Alain Berliner


O filme europeu tem como principal temática a sexualidade, mas que é abordada de forma delicada e comovente. Conta a história de um garoto de sete anos chamado Ludovic que acreditava que um dia poderia ser uma menina. Os problemas começam quando a família do garoto muda-se para um bairro de classe média alta, onde a maioria dos vizinhos demonstra-se de um conservadorismo exacerbado e a transgressão de gênero de Ludovic começa a incomodá-los. Essa manifestação de contrariedade dos vizinhos a respeito do comportamento do garoto deve-se a toda uma construção do pensamento humano sobre o que deve ser aceito e o que deve ser repreendido.

A ideia de que um sujeito do sexo masculino não pode manifestar uma identidade de gênero feminino é tão antiga quanto à história da civilização humana. Desde a Grécia antiga a instituição da família foi consolidada como única forma de vida correta e sadia. A constituição de uma família na antiguidade foi legitimada pelo fato de que somente a união entre um homem e uma mulher poderia gerar a vida de um novo ser, contribuindo assim para a manutenção da pólis. Não obstante a esse fato, tem-se o conhecimento de que muitos homens de alto nível social e prestígio mantinham relações afetivas e até sexuais com outros homens mais jovens, como se pode verificar há várias ocorrências na literatura.    Esse discurso de legitimidade da relação heteronormativa foi reforçado pelo advento do cristianismo, com o qual a sodomia, relacionamento homossexual, tornou-se um pecado mortal passível de punição severa.

            A modernidade trouxe grandes avanços e mudanças no campo epistemológico, marcos importantes como a Revolução Industrial e o Movimento Feminista contribuíram muito para a composição de uma nova ideia sobre a sexualidade, a mulher começou a conquistar o seu espaço no mundo e a instituição da família aos poucos deixou de ser intocável assumindo novos formatos e possibilidades. Em estudos modernos como os de Michel Foulcaut (1988), Simone de Beauvoir (1949) e Judith Butler (1990) a subversão da sexualidade é problematizada e o modelo binário dos sexos questionado, abrindo espaço para a discussão sobre identidade e gênero.

            Quando um menino de 7 anos manifesta o desejo de se vestir com roupas de menina, e ter um cabelo grande como o de uma menina e até sonha em casar-se com um outro menino, mesmo para as ultimas décadas do século 20, quando o filme “Minha vida em cor de rosa” é ambientado, seu comportamento é considerado subversivo e causa desconforto geral. A única personagem do filme que parece respeitar a identidade de gênero de Ludovic é a sua avó, com quem ele decide ir morar quando as coisas ficam sérias em sua casa.

            Os pais de Ludovic levam o garoto para consultar um especialista, e é muito interessante ver como eles esperavam que a psicóloga pudesse curar o seu filho, sem saber, entretanto, que ele não tinha nenhuma doença. A experiência só serviu, na verdade, para fazer com que o garoto se fechasse cada vez mais em um silêncio preocupante, tentando esconder a sua identidade. Fica claro que ele está se forçando a parecer um pouco mais masculino quando, na mesa do consultório, em meio a uma série de brinquedos de meninos e de meninas, ele olha desejoso para uma boneca da personagem Pam, que ele adorava, mas não a pega, preferindo brincar com um carrinho, para não alarmar seus pais.

            O filme também salienta a inabilidade da escola em lidar com a personalidade de Ludovic. Quando os alunos começam a se mostrarem agressivos para com o garoto e a professora tenta explicar a turma que é necessário que se respeitem as diferenças dos outros, ela é interrompida por alguém que vem retirar Ludovic da sala de aula a pedido do diretor. Os pais são chamados à escola e a eles é dito que a escola não está preparada para lidar com a “excentricidade” do seu filho e à essa criança é negado o direito de frequentar aquela escola em resposta a uma petição feita pelos pais dos outros alunos. A atitude da escola e dos pais revela como os indivíduos que decidem subverter a normalidade sexual são expelidos dos ambientes sociais e condenados à marginalidade de forma agressiva e excludente.

            Apesar de tratar de uma dura realidade o filme imiscua em sua narrativa certo tom onírico que são próprios do universo infantil, além da forte influência das cores, especialmente do rosa, que geralmente na nossa cultura é relacionada ao universo feminino. Em alguns momentos da trama, o garoto é capaz de voar ou transportar-se para o universo da sua personagem preferida constantemente. Pam se configura na fada madrinha de Ludovic que, como nos contos de fada, aparece somente para ele, o acalenta e ampara nos momentos difíceis e o proporciona a esperança de uma vida feliz, diferente da que ele tem no presente.


            “Minha vida em cor de rosa” é uma obra belíssima e cativante, capaz de tocar a parte mais sensível das nossas emoções e passar uma mensagem de respeito e de amor e mesmo com uma trajetória tão triste, o final do filme deixa entrever uma possibilidade de que Ludovic venha a ser feliz, conquistando primeiramente a aceitação dos pais, para depois ir em busca do respeito dos amigos e vizinhos em um novo bairro, um novo mundo. 

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